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Caminhante do Tempo

A voz interior nunca foi tão clara e objetiva, repetindo-se como um alarme monitorando o despertar da consciência em pensamentos “A estrada é a mesma, os caminhos são diferentes”. No vigésimo quarto de hora, andei naquela estrada, caminhei pelo carreiro da dúvida até chegar à encruzilhada da intuição onde optei pelo orvalho da incerteza até chegar à fonte do desconhecido. Nas águas deste poço sem fim vi uma figura tão horrível quanto o orgulho. Tinha inúmeros braços e inúmeras pernas também. O rosto desta figura era tomado por centenas de olhos que enxergavam por dentro das pessoas e assim viam o pecado de cada ser humano, sua boca sentenciava o castigo de acordo com o tamanho do pecado de cada um, plantando no coração de todos, uma semente amarga. Durante dez dias, convivi com aquelas cenas, exatamente iguais em todas as horas. No outro dia a estrada era a mesma, os trechos não. Segui pela estrada do egoísmo, chegando ao trevo da inveja, logo já estava na fonte da arrogância mitigando a sede de uma figura calva que nem mesmo a barba longa, escondia a cara da maldade. Vi também outra figura magérrima, de costelas salientes e pele fina. Seu rosto era algo agradável de ver, mas o encanto repentino terminou tão logo ele machucou com os pés descalços, a grama do jardim da casa onde morava o rosto maligno. A segunda figura aquietou seus passos no tapete verde e apresentou a identidade da ingratidão. Com o seu dedo maior que os igualmente finos, ele atravessava um osso como se estivesse introduzindo uma aliança, depois ele usava a boca para limpar o dedo. Seus olhos ficaram ainda maiores querendo tomar o osso do cachorro que estava ao seu lado. O cão nem levou por ofensa. Percebendo isto tudo, a figura que só tinha cabelo na cara revelou seu lado justo, alisando os pelos do bicho que pelo reconhecimento da bondade, junto com o afago ganhou também uma ave assada para ser destroçada. Este gesto conteve a ganância do pé de fora que, pela vergonha da cobiça, tentou pedir desculpas lavando o canil do invejado. Este retrato durou uns pares de dias e com muito custo naquela mesma manhã daquela mesma estrada, meu caminho era a inocência. Lá, perto do atalho da ingenuidade, cheguei à fonte da bondade. Que cristalinas eram aquelas águas refletindo uma figura de cobre polido. Esta tinha uma testa também descoberta, mas a própria testa era um espetáculo de tão bela cabeça que tinha. Sua face era como de um homem idoso, os olhos tinham bondade e brandura e percebia em cada coração uma esperança e fazia os mansos herdarem a terra. Depois de muito tempo, esta figura foi abraçada pelo sem nada calçado e as duas figuras tornaram-se uma só. Ou o velho também invejava cachorros ou não sabia por quem foi abraçado.
No penúltimo dia, a estrada da caridade era o traçado. Onde havia encruzilhada agora estava sediado o Recanto da Sabedoria, em poucas jardas cheguei à fonte da bondade e eis que mirei nas águas e no fundo delas estava lá a minha imagem no lugar de todas as figuras. Horas depois, com os olhos no olhos do fundo da imagem vi como se calcula a trajetória de todos os astros, inclusive a dos artificiais. Enxerguei por dentro destes átomos e descobri como se faz para desencadear a força que devora toda a carne e mantém intacta a erva do campo.
Houve então um momento em que avistei de longe um menino, vindo por caminhos que eu não sei, mas a estrada era a mesma, ele trazia empoleirado no dedo um passarinho. Era um canário da terra e estava aprendendo a voar e o menino, que tinha quatro anos, ficou parado ao meu lado e não deu uma única palavra e nada lhe perguntei. Foi então que todas as figuras saíram das águas e partiram pela estrada que nos levou até ali, depois cada uma delas seguiu por caminhos diferentes e o menino estava tão entretido que nem notou nada. Aconteceu que o pássaro pulou na água, talvez iludido pelas árvores de frutos silvestres nela refletidas e o menino pulou atrás, daí levantou-se uma grande voz, como o estrondo de muitas águas e começou a chover e no jardim onde o cachorro e o moço roeram o mesmo osso, choveu o mesmo tanto. Engoliram água igual, os mais diferentes caminhos de todas as figuras, inclusive da minha e, na estrada que era a mesma, a chuva não foi outra, ainda que alguns considerem a caminhada alheia mais fácil que a sua, mesmo só conhecendo o próprio trajeto.
Com a trégua da chuva as aparições também descansaram. Nas águas, agora mais volumosas e não menos cristalinas, límpidas e transparentes, apenas água se via, como o manso regato. Naquele poço, quando a bondade mergulhou, transbordou seus efeitos.
Não se tem notícias quanto ao paradeiro do menino, diferente das figuras que se acredita estarem juntas, ou separadas, na mesma estrada, buscando seus propósitos, cada qual por seu caminho. Entre tantas dúvidas, a grande certeza é quanto ao reencontro de todas, não sendo possível prever quando isto acontecerá.Terminava ali mais um aprendizado Eterno. Estava cumprida aquela importante etapa que possibilitará o acesso a outras igualmente importantes.