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Começo da História

Cá estou. Não magoei ninguém e nem vidas ceifei. Desde os tempos outros tenho dificuldades em suplantar a vaidade. Assim mesmo, a meu juízo, neste momento eu dispenso ela. Está dispensada porque meu comportamento não tem registros dignos de enaltecimentos, apenas tenho cumprido minhas obrigações. Pois se esta prática é a verdade, tomemos a verdade dela emprestada para também dizer que infrações não tenho cometido. Se o trabalho me fez a escolha, tantos outros também são melhores escolhidos. Mas, se a missão de dá como pena, tantos outros apenados chegaram aqui antes e aqui ainda estão. Se a opção se dá pela idade, quantos mais veteranos ou mais novos também não são? De modo que em uma situação ou em outra, tanto pelo critério da virtude ou da falta dela, razões mais fortes que as palavras, argumentam a minha recusa, em qualquer das hipóteses.

Indago-lhe, se o critério está no crivo do mérito, não é em mim que encontro o credenciamento, estou no meio, tendo em meus arredores tantos outros mais credenciados. Já, se o método se estabelece não pelo mérito, mas pelo seu antônimo, tem também muitos deméritos que com merecimentos preenchem os quesitos preenchidos pelo meeiro. Se for tributo, homenageio o contemplado. Se for sentença, meu auxílio com o conforto dos bons fluídos será permanente, estando eu aqui, no mesmo lugar onde me rejubilo com o homenageado. Obviamente, se o seu imenso saber, assim consentir.

 – Jafrahin, posições idênticas à sua é o braseiro da nossa cautela. As cinzas não terão início sem que tenha transcorrido o interstício da quarentena. Teu olhar abriu meus olhos para a prudência me fazendo  enxergar que tua resposta se apresenta em duas perguntas que em qualquer dos rebates, ela já estaria respondida. Considerando que suas respostas são sábias, responda-me sem perguntas qual dentre os nossos irmãos poderá substituir-te sem apresentar idênticas justificativas? Até hoje, a escolha tem sido minha maior preocupação. Felizmente poderei me dedicar a inquietações menores, contando com seus préstimos para resolver esta. Dentro dos argumentos apresentados, dai-me agora o nome daquele que deve ser nomeado?

  – Mestre da Grande Luz, em nome da Luz Maior peço desculpas pela infelicidade nas palavras…

  – Jafrahin, você emprestou a verdade, meu hábito é hipotecá-la. Se esta é a sua prática, espero que a palavra infeliz não seja comodato com outro irmão, pois aqui não conhecemos o seu significado. Agora me diga, quem será o seu substituto?

  – Consente-me algumas horas para refletir?

  – Terás trinta dias a contar da data de hoje, Jafrahin.

  – Tempo mais que suficiente.

  – Seja prudente e seletivo. Olhos de águia.

  – Quisera eu ter olhos tão poderosos.

  – Faças um acordo com a ave Jafrahin e tome os dela por empréstimo, antes disto, retomemos nossos afazeres.

NORTES DE UM PEREGRINO”

  “De nada adianta o homem ganhar o mundo se perder sua alma – MATEUS 16

 Retornei para a Câmara do Meio encontrando ela dividida em dois abrigos. Em um estavam os pensamentos sobre aquele diálogo enquanto as reflexões sobre a indicação hospedava-se no outro. Chegou ali Seremias dizendo:

  – Jafrahim, acabo de retornar da Câmara de Reflexões de onde lhe trago novidades.

  – Câmara de Reflexões hoje?

  – Ficou surpreso Jafrahin? Eu também fiquei. Foi uma reunião de emergência. Durante a Cadeia de União, circulou o aviso comunicando que a sessão extraordinária era para tratar da escolha de um emissário que terá incumbências importantes e pré-definidas junto a Dimensão Intermediária. Depois do início dos trabalhos as Luzes do Oriente revelaram que eu deveria ser o incumbido. O mesmo entendimento verificou-se na Coluna do Norte. A palavra passava pela Coluna do Sul quando manifestei estar de pé e à ordem para o cumprimento das obrigações.

  – Seremias, quem será o Mestre que assumirá seu lugar como meu instrutor?

  – Também fiz este questionamento e a chancelaria esclareceu que as novas atividades terão inicio apenas daqui a quarenta dias o que não compromete acompanhá-lo até o término desta fase, conduzindo-o ao Aumento de Salários, cuja solenidade acontecerá no trigésimo dia de agora em diante.

  – Em quarenta dias se iniciará as novas atribuições?

  – Sim este é o prazo.

  – Porventura Seremias, sabes informar se foi sondado alguém antes que seu nome fosse apreciado?

  Seremias não entendeu a intenção da pergunta até que eu revelasse o diálogo durante o meu encontro com o Mestre da Grande Luz.

  – Estou seguro Jafrahin que são assuntos diferentes, mas, o período concedido para que você indique outro irmão e a data marcada para seu Aumento de Salários não é mera coincidência. Amanhã você iniciará em novos conhecimentos e pelas instruções aprenderá como os caminhantes do tempo mitigam a sede na fonte da sabedoria. Logo você aprenderá a estabelecer critérios para a utilização do tempo e sua voz interior estará no mesmo tempo que os desígnios pelos quais te tornarão eterno. Esta prática acontecerá em pouco tempo, no tempo ideal.

  Já na seqüência, Seremias imprimiu o ritmo na conversa puxando recordações do baú do passado e, pelas lembranças, embrenhei-me nas memórias jamais varridas pelos ventos da saudade. A amistosa conversa foi recheada também pelas instruções quanto aos procedimentos que eu deveria adotar nos próximos trinta dias, cumprindo a derradeira etapa do trecho inicial como Caminhante do Tempo, com muita ênfase nas observações interpretativas dos caminhos que constituíam o trajeto. Ao término no diálogo tive uma grande certeza “eu não conseguiria encontrar um substituto durante aquele tempo, se continuasse perdido nele”.