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História Bem Contada

Bem sei eu que a diferença entre a mesma história da história que não é igual está na interpretação diferente de quem as lê ou de quem as registra. Por isso, dediquei considerável tempo tentando encontrar palavras que substituíssem as anteriores visando justificar as injustiças e erros que certamente irei cometer no conjunto deste trabalho, os quais não serão poucos. Muito embora tenha me esforçado, não consegui estabelecer através do raciocínio pronto uma justificativa para as situações que, de um modo ou de outro, o conteúdo destes manuscritos possa ferir alguém, causando constrangimentos. Preocupam-me sobre maneira estas probabilidades, afinal, a intenção da história é outra e bem diferente.

 Na balança da ética, pesava contra a decisão de levar à frente esta proposta, os equívocos que serão interpostos pelo caminho e as inevitáveis injustiças que posso cometer, sendo regulados pelo contrapeso de exemplos da própria história que em seus acontecimentos mais importantes, não aponta nenhum registro que esteja isento de dúbias interpretações. O equilíbrio devolveu para o autor o peso da responsabilidade decisiva quanto a sua publicação e as conseqüências que dela decorrem. Girando a reluzente bola de cristal, encontrei a imparcialidade como guarida para o prosseguimento do ideário. Os passos iniciais foram obstruídos tão logo a lógica deu boas vindas “os critérios da imparcialidade estão condicionados à parcialidade alheia, dos quais não tenho acesso, conhecimento e tampouco o direito de julgá-los.” Neste saco havia mais segredos do que se rosnava ter.

Sendo a pedra e a vidraça dependentes, da mesma forma, da força de suas estruturas na resistência e nos arremessos, parece-me justo dividir com os ledores a carga do julgamento interpretativo, transferindo-os também a competência ampla de condenar ou absolver sobre a veracidade ou não, no tocante ao âmbito temático da totalidade das peças aqui apresentadas, cabendo a estes balizar a sentença de acordo com o juízo interno, preceituando conceitualmente a verdade nas salvaguardas do dolo e da intenção, onde estão unidos os critérios, cujo conjunto integra igualmente os fardos divididos proporcionalmente nos ombros de cada um.

Esta sessão de instância imaginária terá como lugar a data que melhor lhe convier, não consta do processo as considerações abaixo arroladas, mas são atinentes a ele, citando o início da divisão da carga, como exemplo:

“A brilhante carreira daquele desembargador estava chamuscada pelos incessantes boatos esparramando suspeitas em torno das mais variadas sentenças. Os comentários que inicialmente pareciam não passar de filigranas ganharam novos testemunhos que, pelas declarações, inquinaram a credibilidade do agora aposentado, dando corpo e volume às dúvidas sobre a idoneidade das marteladas pregadas durante os quarenta anos de atividades. A palavra patranhas tão utilizadas pelo acusado como argumentos nas rebatidas de defesa não atenuavam o descrédito e suas extensões chegaram à família que mesmo não sendo acusada, também estava condenada pela opinião pública. Assim, entendeu ele ser inevitável estancar a sangria do estrago, elidindo os boatos desairosos, valendo-se da sua principal ferramenta de trabalho para a empreitada. O malhete estava inativo, seu conhecimento e acervos da experiência, não. A fama do impetrante de não ser homem de meias palavras foi mais uma vez comprovada na irreverência de sua ousadia sugerindo colocar no banco dos réus a sua própria consciência. O atrevimento por caminhos naturais serviu de pia batismal para o título “Veredicto Suicida”, nome comumente usado pela mídia e pelo seu alvo.

 A proposta era inédita. Decerto o causídico fez da inovação a égide dos múltiplos interesses, tendo considerado entre eles o fato do foco de onde proliferava os boatos serem os pontos de encontro dos habitantes da área urbana, partindo dali para as mais longínquas comunidades rurais. Sendo o objetivo profligar as acusações, a estranha defesa serviria como ingrediente temperando a salada da urdidura e ao mesmo tempo tornava-se um paliativo para conter o apetite das famintas bocas que com gosto digeriam e divulgavam a suspeita como prato principal. Se esta era a estratégia, parte dela não poderia ter efeito melhor, desde o seu nascedouro até outras vertentes, pois, nos meios forenses e fora deles as discussões entre os ruminantes não arrefeciam e as tertúlias ruidosas nas esquinas, nos comércios e residências, promoveram uma divulgação desenfreada.

 A notória agilidade da justiça foi facilitada no trâmite burocrático que, por razões óbvias, não sofreu embargos. Decorridos alguns dias, apagam-se as luzes das salas e corredores da justiça. Poucas horas depois, o alvorecer de frio intenso apresenta temperaturas jamais registradas noutrora. A cerração limitava os olhos a enxergarem poucos metros à frente. As ruas estavam desertas, mas ninguém acatou o palpite e as casas imediatamente foram desabitadas. O tão propagado dia estava acontecendo. Nas galerias do prélio estava a população inteira e, exprimidas umas as outras aqueciam aquela friorenta manhã que em poucos minutos estaria ainda mais quente pelo transcorrer da refrega.

 O silêncio seguido da acomodação dos presentes em seus assentos é a preliminar para o estabelecimento do contraditório ao tempo em que você fixa os olhos no símbolo da verdade e, segundos depois, sua atenção é abstraída por um chamamento alertando sobre o seu grande compromisso neste embate, para o qual é de sua livre escolha a função a ser exercida, podendo presidir a sessão, ajudar tanto na defesa como na acusação e ainda, sentar-se no banco dos réus, se assim desejar.

Também lhe é assegurado o direito de desempenhar todas elas, independentemente se isoladas ou em conjunto, não sendo facultado, entretanto deixar de exercer ao menos uma destas opções durante o julgamento.

Pois bem, todo o conteúdo deste manuscrito é a pauta em discussão, estando o seu volume original no banco dos réus. Você está manuseando este livro e as três páginas iniciais estão em branco, no topo da quarta página, duas únicas linhas “O mundo é um belo livro, mas pouco útil para quem não sabe ler – GOLDONI”. Na peça subseqüente, esta é a introdução do autor:

 Apenas cinco minutos serão suficientes para algumas pessoas entender o conteúdo deste espaço em seu todo. Para outros leitores, poucos segundos é tempo mais que suficiente. O segredo é que o teor deste manuscrito está resumido na alvura das páginas iniciais, ratificadas posteriormente por Carlo Goldoni. Não existe, portanto nenhum mistério. É apenas uma receita simples tendo como ingredientes a convicção de que o tempo do ledor vale ouro. Uma das metas aqui lançadas é não comprometer a sua fortuna, assim, vamos imediatamente ao tema, antes que as considerações iniciais se tornem prolixas pondo em risco a sua riqueza ainda que o objetivo seja contribuir para que você jamais seja menos pobre.

Destas considerações promana todos os argumentos, fundamentos, provas, exemplos, testemunhos, enfim todos os mecanismos e instrumentos disponíveis para o seu manuseio e explorações argumentais, bem como para as demais partes envolvidas. Quero ressaltar que está dispensada a necessidade de considerar as demais folhas para o julgamento. É razoável propor, que caso seja julgado não ser de bom alvitre estabelecer um juízo diante do que foi apresentado, concluindo ser prudente abdicar desta oportunidade, está prudência também implica abrir mão de utilizá-la antes que a leitura seja concluída, ficando convencionado que a interrupção é a chave automática eximindo das responsabilidades assumidas. Claro que este acordo é mera presunção, por outro lado, pelo cumprimento ou falta dele, também me faculta dar a devida importância as considerações de cada um, reduzindo a relevância na mesma proporção que foi reduzida o contido impresso, que passa a vigorar a partir da próxima página, “Começo da História”.

 E Como poderei eu deduzir se a leitura foi parcial ou não? Bem, o assunto não é a consciência?