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Histórias Iguais

Que tempos são estes que me levam a intuir o tempo todo, que tempos foram aqueles quando os meus iguais estavam caminhando comigo, na mesma estrada por caminhos tão diferentes? Ao dar tempo ao tempo encontro na reflexão o atalho da fonte dos momentos onde olho para o tempo e mesmo não me encontrando me vejo com todos alternando passos comigo, sem ser percebido mesmo percebendo ou não percebendo embora sendo percebido. Nos crepúsculos dos entardeceres quando lá dentro estávamos todos, junto aos filhos a mãe tornava-se também criança ouvindo os contos narrados pelo marido. As palavras do pai criavam o cenário no imaginário pueril. Nem sempre o que nos parece ser, efetivamente é, haja vista que em determinadas situações a sombra é muito mais forte que a luz, evidenciando desta maneira o cuidado que o ator deveria ter, tramando os ensaios de enredos cuidadosos. É bem verdade que o carneiro não é nem nunca será lobo. Esta é a comédia dos olhos que enxerga diferente, confundindo este com aquele. Lá dentro, o dramaturgo sabia que a interpretação do texto seria a teoria influenciando no contexto, sem censuras, na ação prática da platéia que lá estava. Para o ator a história chegou ao fim, antes que fosse concluída a história por ele contada. A estrada agora é outra e seu papel será registrado de acordo com os dramáticos que habitam em cada um. Juntos, os ouvintes permaneciam acordados, divididos por sonhos e pesadelos separados pela fina cortina de fumaça provinda do fogo que não queima a espessa divergência entre as verdades, mas reduz às cinzas as interpretações em torno dela. Logo, nos arredores dos que lá estavam, o archote pegou fogo. Enquanto uns foram sufocados, outros que estavam lá exalaram o ar carregado, como se as impurezas fossem o mais puro incenso persa. A carniça abre o faro aumentando o apetite dos abutres predadores, que pelos mortos estão vivos a espreita das presas que mesmo não estando mortas, jamais estiveram vivas.

Lá fora, no transcurso de um tempo sem fim, os enredos se repetem na memória contracenando com as saudades carregadas pelos ventos e redemoinhos de lembranças dos bons momentos juntos partilhados, preenchendo o vazio do espaço já acontecido com a certeza de que em breve retornará alguém que mesmo não estando, jamais partiu e continua sendo a essência em seu todo.

Pela janela do horizonte os que não completaram seus tempos olhavam para o tempo e nele estavam todos os que cumpriram seus ciclos, estando agora em tempos maiores. Aqui embaixo a palavra trancada no peito dizendo “que saudades”, lá em cima a resposta vem da alma “eu também”.

O tempo vai passando. A lua maior ilumina a inspiração de ondas hilariantes conversando com as rochas chorosas, arranhadas por areias dançantes em vórtices contínuos. Para todos que lá estavam o diálogo da natureza era o conforto alentando que “mesmo quando os lábios não se tocam, os olhos se beijam”. Os ouvidos moucos que estavam lá, até hoje não entenderam que quando a lua cheia não clareia e nada se vê é porque aqueles olhos estão rendidos por bocas sedentas que se entregaram a beijos intermitentes. Nestes momentos estão os instantes mágicos dando respostas à indagação “Que tempo é este”? Para dar a resposta o beijo é interrompido pelas palavras “olhe dentro de ti”. Obedecendo a recomendação brilha a luz refletindo estar tão próximo o que jamais esteve ausente.

 Depois de muito tempo, os que não estão mais lá, continuam ensinando que há ouvidos falando e bocas escutando, entretanto, esta lição ainda não foi entendida por todos que não estavam lá. É bem provável que somente quando todos estiverem juntos, aqui onde alguns permanecem ou lá onde outros estão, seja o tempo certo comprovando que longe e perto está próximo o tempo inteiro. É a mesma distância que separa a ausência da presença. Os que lá não estiveram suplicam “Que tempo será este”? É o momento divino definindo a indefinição de segundos transformados em horas e minutos que duram eternamente. “Quanto tempo ainda falta”? O tempo suficiente para fechar os olhos da hipocrisia que obstam uma nova visão, impossibilitando uma ótica diferenciada. O início de um novo tempo dará sua largada no instante que caírem por terra as venda do olhar que nada vê, então, brotarão das sementes os frutos considerados perdidos que serão encontrados, estando todas junto feitas raízes da mesma planta.

Esta é a realidade que aqui será defendida a partir deste momento. Sei que para uns, os tempos são outros e eles também. Ora, o despertar de buliçosas mentes estão tão alienados aos soberbos e aviltantes enganos próprios que nem mesmo os badalos de ponteiros dos tormentos acordam o pesadelo que destrói em poucos segundos a essência de uma vida inteira. Este filme que se repete lá fora e lá dentro será o tema principal dos capítulos de agora em diante. Todavia, aqui a história é outra, conquanto, a realidade é a mesma, embora seja apresentada para aqueles que não estavam lá, através de verdades diferentes, os personagens são parecidos com todos que lá estavam.  Lá dentro os fantasmas são iguais. Lá fora, os dramas estão próximos e por motivos idênticos as razões são as mesmas, dentre elas a chegada de tempos modernos predominados por memórias curtas que extraviaram a lembrança do justo inocentemente crucificado. “Que tempos foram aqueles”? Da Luz da Verdade referendando que para ressuscitar não precisa estar morto. É possível estar enterrado, mesmo estando vivo. Em tempos atuais, mesmo não sendo necessário transformar água em vinho os embriagados materialistas no alto de seus pedestais querem que o grão de areia transforme-se no mais puro ouro, assim, é o espelho dos alquimistas praticando o egoísmo e portando-se como altruístas. Neste e noutros palácios habitam os imperadores do mau com suas coroas coroando uma repugnante história permeada por vendilhões do templo na retomada do comércio da exploração de miseráveis a troco de mercadorias. O preço desta conta é a penitência que se separou da confissão, o arrependimento andou pelo calvário, lá conheceu o castigo por quem se apaixonou. O calix brindou o matrimônio e o pacto foi selado ritualisticamente no mesmo lugar que decorridos nove meses do resultado, serviu como berçário onde nasceu o primeiro filho conhecido como pecado.

Interprete o texto ao seu modo, do mesmo modo me interpreto. Quero com isso dizer que o cenário da vida real já tem muitos comediantes que, pelos aplausos da vaidade, franqueiam as portas para os risos e risadas hilariantes do público. Neste circo ostensivo do ego massageado pela mentira, a farsa não aumenta o nariz, mas, nela são depositados os ovários para a reprodução e perpetuação dos Pinóquio, servindo de carapuças aos reais palhaços da realidade deprimente.   Assim, em enquanto cá estamos busquemos não arredar pé dos ideais louváveis sem jamais abrir mão de buscar a verdade, do contrário, seremos escravos da mentira. As chibatas da decência acoitarão um corpo fragilizado em seu estado de velhice.

 T?F?A?