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Ver e Chorar. Sermão Lágrimas de São Pedro

Ver e Chorar

Notável criatura são os olhos! Admirável instrumento da natureza; prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira origem da culpa; eles a primeira fonte da Graça. São os olhos duas víboras, metidas em duas covas, e que a tentação pôs o veneno, e a contrição a triaga. São duas setas com que o Demónio se arma para nos ferir e perder; e são dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O ouvido ouve, o gosto gosta, o olfato cheira, o tato apalpa, só os olhos têm dois ofícios: ver e chorar. Estes serão os dois polos do nosso discurso.

Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a ação mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento.

Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque veem.

Lembrai-vos

Abri-nos estes olhos, para que se desfaçam em lágrimas por vos terem negado e por vos terem tanto ofendido. São Pedro, divino apóstolo, divino penitente, pontífice divino, lembrai-vos desta vossa Igreja, que tão cega está e tão impenitente. Lembrai-vos destas vossas ovelhas. Lembrai-vos destes vossos filhos, e dessas lágrimas que vos sobejaram: derramai sobre nós as que tanto havemos mister.

Alcançai-nos daqueles olhos, que tão benignamente vos viram, que imitemos vossa contrição, que choremos nossos pecados, que façamos verdadeira penitência, que acabemos uma vez de nos arrepender e emendar de todo coração. E nesta semana tão sagrada, lançai-nos do céu uma bênção, e concedei-nos uma indulgência plenária que nos absolva de todas nossas culpas. Sobretudo, perseverança na graça, nos propósitos, na dor, no arrependimento, para que chorando o que só devemos chorar, vejamos finalmente o que só devemos desejar ver, que é a Deus nessa glória.

 

Padre António Vieira, in “Sermões”

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