Home / Ao Pé da Letra / Vícios de linguagem. Você sabe o que está falando?

Vícios de linguagem. Você sabe o que está falando?

“Bendito o que semeia livros… livros à mão cheia… E manda o povo pensar!” Para Castro, o livro é um templo de ideias.

Vícios de linguagem

Vícios de linguagem são contagiosos em qualquer parte do Mundo. Num país como o nosso, com índices tão altos de analfabetismo funcional e tão baixos de leitura, as barreiras imunológicas frangam mais. Tomar consciência do problema é a melhor vitamina e também o propósito dos artigos desta categoria dedicada a língua portuguesa.

O ideal é que a leitura se converta em hábito, é mediato e está a longo prazo. Virá depois que  o livro seja companheiro de todas as horas de  nossa gente, como tem sido as redes sociais. A necessidade de eliminar o português maltratado, é imediata.

Você sabe o que esta falando?

Postei recentemente em Origem dos ditados,  coletânea de provérbios. Os ditados populares sempre estiveram presentes ao longo de toda a História da humanidade. Entretanto, poucas pessoas sabem o porquê de falarmos alguns adágios, que estão em nosso cotidiano. Listarei algumas expressões  que tiveram o sentido deturpado ao assumirem outros fonemas:

“Quem não tem cão, caça com gato”.
O correto é: “Quem não tem cão, caça como gato”… ou seja, sozinho!

Se por acaso tens dúvida ao definir uma cor sempre costumamos dizer:
Cor de burro quando foge
Burro não muda de cor, doce ilusão. E burro foge? Ele não costuma empacar que nem jegue? De qualquer jeito…
O correto é: “Corro de burro quando foge

Cuspido e escarrado”
Usado para se referir a alguém que é parecido com outra pessoa, mas não é isso e nem é assim que se fala.
O correto é: “Esculpido e encarnado”

Quem tem boca vai a Roma”. É um adágio que tem seus méritos. Valoriza as pessoas esforçadas e que não se envergonham de perguntar. Afinal, quem pergunta e questiona consegue ir aonde bem quiser. Todavia, não podemos deixar de dizer que a forma correta desse ditado é: “Quem tem boca vaia Roma”. (isso mesmo, do verbo vaiar). É justamente isso que as pessoas faziam em relação aos “deslizes” dos imperadores e as formas de governo que definhavam o império: vaiavam Roma.

Possuir ou ter?

O uso de possuir no lugar de ter é um dos vírus do momento. Semana passada, na página da rádio MEC FM no Facebook, lia-se que Mozart escreveu a ópera Idomeneo quando “possuía 25 anos de idade”. Um artigo acadêmico da área de pedagogia, escrito por doutores, afirma que alguém “possui uma dúvida”. São só dois exemplos – as ocorrências beiram o incontável.

Na raiz do modismo está a ideia torta de que possuir é um verbo mais bacana, mais nobre do que o humilde ter. O mesmo raciocínio que leva muita gente, principalmente quando escreve, a preferir palavras pomposas: esposo em vez de marido, automóvel por carro etc.

Só esse cacoete bacharelesco, velha mania nacional, já seria chato, mas as frases ali de cima têm um defeito pior. Possuir é sinônimo de ter, mas não é idêntico a ele. Sinônimos perfeitos não existem: mesmo quando o sentido deles coincide em todas as acepções (não é o caso aqui), restam as conotações, a aura de cada palavra. Nessas horas o ouvido é nosso melhor guia.

Possuir envolve posse. É um verbo mais solene, mais pesado, mais duradouro. Possui-se um bem ou valor (casa, carro, diploma). Possui-se um atributo que defina a personalidade do possuidor (inteligência, beleza, dom). Não se possui algo tão trivial quanto uma dúvida ou tão provisório quanto uma idade. Isso não possui (opa!) cabimento.

Em tais casos a palavra adequada é ter, um verbo leve, contingente e versátil. Ninguém vai estranhar se você disser que tem um violão, embora também pudesse dizer que o possui. Mas experimente dizer que possui calafrios quando vê a língua ser maltratada assim…

http://www.melhordizendo.com/category/vicios-que-vicejam/

Na Wikipédia encontramos o seguinte texto:

A Língua Portuguesa… está presente em nove países diferentes

Existem países iguais?

Literalmente

Estou literalmente frita”, diz a moça que acabou de perder o emprego, sem saber que desperta na imaginação de seu interlocutor quadros terríveis de violência medieval. Teriam os perpetradores de tal barbaridade usado azeite, manteiga ou óleo de girassol?

Nenhuma das alternativas acima, claro. A moça desempregada quer dizer que está figuradamente frita, mas erra o advérbio e acaba usando um de sentido oposto. O máximo que se pode dizer em sua defesa é que tem a companhia de multidões.

Não é de hoje que o advérbio literalmente vem sendo usado de forma liberal demais, como se seu papel fosse o de intensificar, frisar, quando tem função bem diferente. Quer dizer “ao pé da letra” e indica que uma palavra ou expressão não deve ser compreendida, naquele caso, em sentido figurado.

De modo geral, emprega-se literalmente em duas situações: para destacar que uma transcrição ou tradução é meticulosamente fiel ao original ou quando – quase sempre com intenções cômicas, espirituosas – uma expressão que poderia ser compreendida em sentido figurado aparece em sua acepção mais básica, literal.

Alguns exemplos de uso adequado do advérbio, todos no campo da comédia ligeira: “O bombeiro hidráulico entrou pelo cano – literalmente”; “Escassez de seringas na saúde pública é o fim da picada – literalmente”; “Brasileiro vai para o espaço – literalmente”.

Como se vê, mesmo como recurso cômico o literalmente é de eficácia duvidosa. Tem sua hora, mas recomenda-se usar com parcimônia. A mesma parcimônia que devemos exercitar diante da moça “literalmente frita” e sinceramente aflita, contendo o impulso de lhe perguntar sobre a manteiga e o óleo de girassol.

Lições de português têm hora